M. Azevedo Fernandes
Director de Serviço no Hospital Magalhães Lemos, Porto, Portugal

SOBRE A PSICOLOGIA DA FORMA
E OS 12 PRECEITOS DE HANS-JÜRGEN WALTER

(Extracto de: Comunicação - Psicoterapia. Jornal do Médico, XCVIII: 509-526, Novembro, 1978)
With a short comment by Gerhard Stemberger



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Desde muito cedo, impressionado pelo alcance que se me afigurava vir a ter em psicopatologia a psicologia da forma, li alguns autores da escola de Berlim, creio que inspirado nos primorosos estudos de Newton de MACEDO, e publiquei em 1948 um trabalho, de colaboração com o malogrado amigo Waldemar Brutt PACHECO, intitulado: "Ensaio da teoria da forma em psicopatologia: depressão do climatério, anomalias sexuais e histeria". Este trabalho apareceu muito depois dos estudos de A. GELB e K. GOLDSTEIN sobre afasias, que eu nunca li. Muito mais recentes são os afamados estudos de K. CONRAD, que ocuparam os estudiosos da psiquiatria em Portugal - designadamente Fernardes da FONSECA - e a conhecida psicopatologia de K. W. BASH.

Não sei comentar CONRAD, que era um fino e engenhoso psicopatologista, cedo arrebatado, à vida. BASH fez um primoroso livro didáctico, mas não tirou o melhor partido da psicologia da forma nem da psicologia analítica de C. G. JUNG, onde buscou apoio doutrinário.

No C. G. Jung Institut, de Zurique, a psicologia da forma (Gestalttheorie, Gestaltpsychologie, Gestaltanalyse) não foi votada ao ostracismo. Sabemos, porém, através do recente livro de Hans-Jürgen WALTER, "Gestalttheorie und Psychotherapie", que o C. G. Jung Institut, de Estugarda, e particularmente atento às leis da forma.

Algumas psicoterapias, como a psicologia analítica, psicodrama, terapêutica rogeriana e "Gestalt"-terapia de PERLS, alinham pela psicologia da forma, segundo a opinião de WALTER.

Os livros "Der Gestaltkreis" e "Beziehung und Gestalt", da autoria, respectivamente, de V. von WEIZSÄCKER e D. WYSS, são dois monumentos, se os considerarmos no contexto total da obra de cada um dos autores, onde as leis da forma ascendem, pelas coordenadas da percepção e condicionalismos varios, a finas psicopatologias e a systemas antropológicos coesos e abertos.

Algo se dirá ainde sobre D. WYSS.

H.-J. WALTER, que muito prestigia METZGER, informa-nos como este autor destrinça na psicologia da forma: método doutrinário, fenomenologia, teoria dinâmica e inserção psicofísica (na base do isomorfismo).

As leis da boa-forma - proximidade, igualdade, fechamento, sorte comum, experiência, etc. -, tanto quanto a reversibilidade fundo-forma, a expressividade, o isomorfismo e os mais (ver obra cit. de D. KATZ), deverão ser rneditadas para quem se queira abeirar da psicologia e da psicopatologia e, na situação presente, nos queira seguir na apresentação dos 12 preceitos a atender em psicoterapia submissa aos principios da Gestalt, segundo WALTER, os quais nós respeitamos integralmente na Comunicação.

1 - Respeitar a forma, abrindo facilidades a que a natureza de cada um se realize, haja em vista o respeito educacional e relacional que nos deve merecer o tipo psicólogico da pessoa.
Não raro muitos destes males estão na familia, onde, por exemplo, abusivamente se impõe fazer evoluir uma criança introvertida na linha da extroversão, ou uma criança sensorial na linha do pensamento puro.

2 - Modelar as forças internas sem as modificar muito, embora estimulando-as, encaminhando-as e rnoderando-as. A sentença é: não empurres o rio, ele corre por si mesmo. O terapeuta tem de renunciar à curiosidade, o educador tem de aceitar a distimia do educando.

3 - A intervenção tem tempos de validade útil. Interna-se um alcoólico no momento crítico em que ele supõe que a vida Ihe foge, esclarece-se o adolescente com validade quando a crise o desconserta. Temos de nos colocar "onde o outro está"; bater o ferro quando está em brasa.

4 - A rapidez na acção tem medidas próprias: no crescimento, na maturação, na aprendizagem, etc. É o caso do negro que viajou a primeira vez de automóvel e, decorridos dois quilómetros, quis parar e sentar-se na beira da estrada para dar tempo a que a alma chegasse.

5 - Há que suportar caminhos mais longos do que aqueles que rectilineamente parecem levar-nos a resolução ou conquista do alvo desejado. A criança em evolução e um encaminhamento psicoterapêutico são disso testemunhos flagrantes, com seus retrocessos, paragens e florações aliciantes sem concretismo.

6 - Aptidão de permuta entre orientador e orientado, alternância de cada um deles nas posições de sujeito e objecto (conforme os princípios psicoterápicos da caracterologia de F. KÜNKEL); são as situações do Top-dog e Under-dog (segundo PERLS) que se alternam.

7 - Modéstia no carácter relacional dos factores causais, sabendo nós que uma causa pode originar muitas maneiras de acontecer e uma maneira de acontecer pode provir de causas muito diversas. Quanto mais recuada é uma "causa" maior é o Ieque dos efeitos a presumir. Tarmbém para um dado efeito, seja a frigidez ou a anorexia por exemplo, quanto mais se buscam causas no passado longinquo, mais elas se multiplicam e menores são as probabilidades de acertar. Daí o vício dalgumas doutrinas mono ou oligotemátivas que se aliciam com as buscas no passado longínquo.

8 - Concretismo dos factos actuantes. Temos que objectivar, por exemplo: para que quer dialogar ? para que se propõe fazer psicoterapia ? para que deseja curar-se da impotência ? para que recorre a operação estética ?

9 - É só a totalidade da situação presente que influencia o acontecer actual e não os factos psicológicos passados ou futuros. É o aqui-e-agora. JUNG não está longe deste pensamento. Ninguém se banha dues vezes na mesma áqua.

10 - Autenticidade e transparência do orientador. "Só na medide em que eu ofereço a realidade autêntica que está em mim, pode o outro procurar em si, com êxito, a realidade". É o caso do fabricante-de-chuva chinês, que, ao ser interrogado pelo êxito conseguido com o seu recolhimento e jejum, respondeu: entrei em mim próprio e pus-me em ordem; e se eu estou em ordem, também o mundo à minha volta se deve pôr em ordem, e à seca deve seguir-se a chuva (de C. G. JUNG, cit. por J. JACOBI).

11 - Aceitação e valorização do outro (do diente): "quanto mais posso aceitar alguma coisa ou alguém. tanto mais facilmente consigo uma relação útil". A pessoa que eu aceito impõe-se-me em todos os seus valores e desvalores; desmembrá-la em qualidades de opção é tomar abusivamente a parte pelo todo, é reduzi-la a um conceito irreal, é desagregar-Ihe a forma. De tal vicioso pensar se denuncia que este ou aquele individuo é um bom espécimen de sexo ou um apreciável servo de trabalho. Por tais juizos de valor, um caçador matava ou tentava matar indios nas florestas do Brasil, liberto de sentimentos de culpa e mesmo estranhando que a lei o incriminasse. Com tal mentalização floresceu o racismo e os nazis cometeram um dos mais monstruosos crimes da história da humanidade, matando judeus e inválidos.

12 - Empatia, que "é a possibilidade que nos assiste de vermos o outro com os olhos dele; é penetrar simpaticamente em todos os sentimentos e comunicações do cliente o no seu respectivo significado de momento".
Neste a-propósito vamos referir muito resumidamente a parábola taoista citada por METZGER e que lemos em transcrição de WALTER.
Em tempos muito longínquos, no desfiladeiro de Lung-men, havia uma árvore-kiri, um verdadeiro rei da floresta. Um poderoso feiticeiro conseguiu realizar com esta árvore uma harpa maravilhosa, cujo indomável espirito só poderia ser subjugado pelo maior de todos os músicos. Foi guardada pelo imperador da China no seu tesouro, mas durante muitos anos ninguém conseguiu tirar dela mais do que sons ásperos de desprezo.
Quando por fim veio Peh Ya, o príncipe dos harpistas, tocou maravilhosamente e reviveu lendas e tradições. 0 imperador desejou saber do céu a resposta e uma voz soou: os outros fracassaram porque eles só cantavam por si mesmos; eu deixei a harpa escolher livremente a sua própria música e na verdade não sabia se a harpa era Peh Ya ou Peh Ya era a harpa.


Short comment by Gerhard Stemberger:

In his article M. Azevedo FERNANDES presents his quite original condensation of H.-J. WALTERs 12 characteristics of Gestalt oriented psychotherapeutical work (derived from the work of METZGER, ROGERS and R. COHN). In some aspects his interpretation of WALTERs characteristics would probably not have found the approval of WALTER: E.g. the reciprocity of the process in psychotherapy and education (6th characteristic) does indeed indicate the necessity of being aware and open for changes in the relationship between therapist and client, educating and educated person whenever the specific situation calls for such a change - but this should not be confounded with the Top-dog/Under-dog concept of Fritz PERLS, as FERNANDES does in his text.

The authentic version of WALTERs 12 characteristics can be found in:


Hans-Jürgen WALTER: Gestalttheorie und Psychotherapie. 3rd ed. 1994. Opladen: Westdeutscher Verlag (ISBN 3-531-12621-0), pp 148-161.

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Most recent revision: 21.06.2006